Interstellar (2014), de Christopher Nolan, é mais do que uma odisseia sci-fi; é uma meditação sobre a modernidade racionalista, suas conquistas e seus fracassos. O filme retrata um mundo à beira do colapso, onde a humanidade, sufocada por pragas e fome, busca novos planetas para sobreviver. Essa narrativa ecoa a crise do século XVII europeu, marcada por guerras religiosas, ruptura do consenso cosmopolítico e a ascensão do racionalismo como resposta à incerteza. Este ensaio explora como Interstellar reflete o espírito revolucionário da modernidade – a crença na razão como ferramenta de superação do impossível – e suas contradições, desde a tolerância religiosa de Henrique IV até o cientificismo contemporâneo, culminando na divinização do homem.

Henrique IV e a Tolerância na Crise

Em 2010, o British Medical Journal anunciou que uma equipe identificara o crânio mumificado de Henrique IV, rei da França, perdido desde 1793. Henrique IV, autor do célebre “Paris bem vale uma missa”, enfrentou um dilema em 1593: renunciar ao protestantismo para assumir o trono de uma França dividida por guerras religiosas e economicamente devastada. Sua conversão ao catolicismo, recebida pelo arcebispo de Bourges, neutralizou a oposição da Liga Católica. Como observa Stephen Toulmin em Cosmopolis (1992), “tendo-se estabelecido seguramente, [Henrique IV] pode mostrar sua determinação em reduzir a influência da religião na política; com o Edito de Nantes, regularizou a posição dos cidadãos protestantes”. O Edito garantiu liberdades civis aos huguenotes, promovendo estabilidade.

Henrique IV percebeu que o Tratado de Augsburgo (1555), que impunha a religião do príncipe aos súditos, era insuficiente para a França. As migrações internas poderiam desestabilizar o reino. Para ele, a tolerância religiosa era mais prudente que a conformidade forçada, que alimentava perseguições em outros reinos. Influenciado por Michel de Montaigne, seu amigo e conselheiro, Henrique IV governou pela lealdade dos cidadãos, independentemente de sua fé. Montaigne, renascentista cético, escreveu em Apologia de Raymond Sebond: “Quantas vezes julgamos diversamente as coisas? Quantas vezes mudamos de ideia? (…) Nossa condição tão sujeita a desfalecimento deveria inspirar-nos mais moderação e discrição em nossas variações”. Essa visão tolerante e pragmática contrasta com o fanatismo que marcou a Europa.

O assassinato de Henrique IV por François Ravaillac, um fanático católico, em 1610, simbolizou o fracasso da tolerância. A Europa mergulhou na Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), onde, segundo Toulmin, “quanto mais os fanáticos da Contra-Reforma se regozijavam no massacre de protestantes na Batalha da Montanha Branca (1620), mais as pessoas de moderação enchiam-se de desespero”. Essa crise espiritual e política preparou o terreno para o racionalismo moderno, que buscava certezas universais em meio ao caos.

A Ascensão do Racionalismo e a Crise Cosmopolítica

A intolerância religiosa e as guerras do século XVII abalaram a confiança na Cosmopolis – a harmonia entre o cosmos (ordem natural) e a polis (ordem social). John Donne, em Uma anatomia do mundo (1611), capturou essa angústia: “E a nova filosofia põe tudo em dúvida / O elemento fogo extinguiu-se de todo; / perdido está o Sol e a Terra, e onde procurá-los?”. A crise exigia um novo método para restaurar a certeza. Galileu, em 1623, escreveu: “A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (o universo), (…) em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas”. Isaac Newton consolidou essa visão com sua lei da gravitação universal: F = G x M1 x M2 / d². Segundo Pascal Nouvel, Galileu e Newton estabeleceram as raízes do pensamento científico moderno: a simplificação de problemas complexos, a experimentação e a formulação de leis universais.

O sucesso da ciência inspirou os filósofos a buscar princípios gerais e atemporais. Stephen Toulmin identifica quatro mudanças na mentalidade dos séculos XVI e XVII: do oral para o escrito (a filosofia moderna deixa de lado questões relacionadas à argumentação, entre pessoas específicas, em situações específicas, em favor de provas, da evidência técnica); do particular para o universal (os filósofos modernos perderam interesse pelos problemas concretos relacionados à prática moral; para eles, o que interessava era descobrir princípios gerais, universais e atemporais, que pudessem ser formulados  em teoria); do local para o geral (para Descartes, o conhecimento não dependia do acúmulo de experiência de indivíduos e de casos específicos; as demandas da racionalidade impõem à filosofia a busca por ideias abstratas e princípios gerais pelos quais os casos particulares podem se conectar; trata-se do repúdio à diversidade concreta da vida em prol de generalizações abstratas, a fim de, artificiosamente, congregar a pluralidade do real); e do temporal para o atemporal (questões temporais não interessavam mais; a atenção deveria se voltar para princípios que fossem verdadeiros e bons, sempre, de modo permanente. O homem abandona o perene pelo provisório: não está mais interessado em descobrir as soluções para os problemas que afligem sua alma). A filosofia abandonou a vida prática, com seus dilemas morais concretos, em favor de teorias abstratas. Em A Força das Ideias (2005), Isaiah Berlin observar que “o progresso sem paralelo da física e da matemática no século XVII transformou (…) a visão que geralmente se tinha da natureza do verdadeiro conhecimento”. O racionalismo tornou-se o “único método de descoberta e elucidação”, moldando Estados absolutistas e a Reforma Protestante. Michael Gillespie define, em Theological Origins of Modernity (2009) a modernidade como ineditismo; trata-se de um novo modo de estar neste mundo. Implica enxergar-se como sem precedentes no fluxo temporal, algo diferente de tudo o que antecedera. Compreender-se a si como novidade também é compreender-se como criado a partir de si mesmo, radicalmente livre, e não meramente determinado por qualquer tradição ou governado por quem quer que seja, destino ou Providência. Não é simplesmente estar na História, mas fazer História; não é simplesmente definir-se em termos temporais, mas definir o tempo nos seus próprios termos.

Interstellar e o Espírito da Modernidade

Interstellar reflete essa trajetória. Na Terra devastada do filme, a humanidade enfrenta uma crise existencial semelhante à do século XVII: a fome substitui as guerras, mas a busca por salvação permanece. Cooper (Matthew McConaughey) lamenta: “Costumávamos olhar para o céu e nos perguntar sobre o nosso lugar entre as estrelas. Agora, olhamos para baixo e nos preocupamos com o nosso lugar no meio da sujeira”. O diretor da escola de seus filhos reforça: “Não precisamos mais de engenheiros; (…) estamos sem alimentos”. A ciência, outrora celebrada, é reduzida à sobrevivência imediata.

No entanto, Interstellar resgata o espírito revolucionário do racionalismo. Cooper afirma: “Sempre nos definimos pela habilidade em superar o impossível. (…) Talvez tenhamos nos esquecido de que ainda somos pioneiros”. A missão espacial para encontrar novos planetas ecoa a confiança iluminista na razão para transcender limites. O cientificismo – a crença na técnica como domínio da realidade – permeia o filme. Max Weber, em A ciência como vocação, descreve essa mentalidade: “Podemos dominar tudo, por meio da previsão. Equivale a despojar de magia o mundo”. O Dr. Brand (Michael Caine) recita o poema de Dylan Thomas, “Do not go gentle into that good night”, rejeitando a morte: “Não entres nessa noite acolhedora com doçura, / Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura”.

A Nostalgia do Absoluto e o Homem-Deus

A Revolução Francesa, ápice do Iluminismo francês, revelou as promessas frustradas da razão. Como escreve Gertrude Himmelfarb, o Iluminismo buscou “re-fundar” a vida em sociedade pela moral, conhecimento e política. Contudo, o Terror revolucionário abalou a fé na razão como guia moral. Nas décadas de 1960 e 1970, o irracionalismo ressurgiu. George Steiner, em Nostalgia do Absoluto, observa que, “incapaz de lidar com as suas próprias circunstâncias, o homem deseja desesperadamente poder contar com uma vigilância benevolente e onisciente”. Em Interstellar, essa nostalgia se manifesta na esperança de salvação por uma civilização avançada, como na Sentinela de Arthur C. Clarke, onde uma pirâmide lunar sinaliza que os alienígenas “só teriam interesse em nossa civilização se provássemos uma aptidão para sobreviver”.

Nolan, porém, propõe uma “teologia substituta”: o amor como salvação, um humanismo que sacraliza o sentimento sem a submissão a Deus. Luc Ferry, em O Homem-Deus, argumenta que os modernos “veem introduzir em suas vidas cotidianas sentimentos aptos à valorização do conteúdo de um discurso que sacraliza o amor”. Cooper sacrifica-se ao mergulhar no buraco negro Gargantua, transmitindo dados quânticos para salvar a humanidade. No desfecho, os humanos do futuro, tecnologicamente divinizados, manipulam tempo e espaço, mas perderam a capacidade de amar. Para restabelecer laços com o passado, constroem um cubo cósmico que replica o quarto de Murph, filha de Cooper, simbolizando o amor como ponte entre eras.

Contradições e Limites

Apesar de sua ambição, Interstellar tropeça em contradições lógicas. Se a Terra fosse condenada, como os humanos do futuro poderiam salvar-se no passado? A ideia de Cooper como “fantasma do futuro” de Murph é poeticamente potente, mas logicamente frágil, minando a restauração dos laços históricos que Nolan propõe. Como diz Cooper, “os pais são os fantasmas do futuro de seus filhos”, mas o filme não resolve como o passado pode salvar um futuro que o nega.

A modernidade racionalista, celebrada em Interstellar, revela seus limites. A busca pela certeza, iniciada no século XVII, produziu conquistas técnicas, mas fracassou em preencher o vazio espiritual. Nolan tenta substituir a transcendência religiosa pelo amor, mas sua utopia tecnológica, onde o homem se torna Deus, carece de sutileza. A verdadeira força do filme está em sua nostalgia do absoluto – a tensão entre a aspiração humana de transcender e a fragilidade de suas soluções.

Uma resposta para “Interestellar: A utopia racionalista e o fantasma do futuro”.

  1. Borboteios vãos. Merece o oblívio em que colapsa na rede. A maior “falha” do roteiro é exatamente o seu maior acerto.

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