
A Resistência ao Mal em Graham Greene
No conto The Hint of an Explanation (1948), Graham Greene narra a história de David, um menino de 10 anos que, ao resistir a uma tentativa de abuso espiritual, descobre a presença do sagrado. Em um vagão de trem, David, agora padre, relata ao narrador agnóstico sua infância em uma cidade protestante, onde o padeiro Blacker, autoproclamado “livre-pensador”, tenta seduzi-lo com um jogo de trenzinho elétrico para obter uma hóstia consagrada. Blacker deseja profaná-la, desafiando a transcendência: “Gostaria de saber que gosto tem o seu Deus”. David, ameaçado, quase cede, mas, ao perceber o valor infinito da hóstia, engole-a, frustrando Blacker, que “começou a chorar, chorar copiosamente, e se afastou, desaparecendo, com a cabeça trêmula, na escuridão”.
O conto ilustra a resistência ao mal por meio da intuição do sagrado, um “indício” que transcende a razão. Como David reflete, “nós flagramos indícios… Eventos que, de algum modo, não saem como pretendidos – por atores humanos, eu quero dizer, ou pela coisa por trás dos atores humanos”. Essa narrativa estabelece a base para nossa análise: a crise da modernidade, marcada pela perda do sagrado, pode ser compreendida como uma “farsa” que silencia nossa conexão com o transcendente, mas a resistência, como a de David, permanece possível.
Ortega y Gasset e a Farsa da Realidade
José Ortega y Gasset, em Meditações do Quixote (1914), rejeita o idealismo ao afirmar: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não me salvo a mim”. Para Ortega, a realidade radical é a vida, o entrelaçamento do eu com o mundo. Em seu artigo El fondo insobornable (1946), ele define o “fundo insubornável” como “o núcleo último e individualíssimo da personalidade”, soterrado por convenções sociais e ideias acríticas. Quando o homem falseia essa realidade interna, aderindo a ficções ou interesses utilitários, torna-se um farsante: “A realidade externa tem a missão ineludível de ser expressão adequada da realidade interna, caso contrário é farsa”.
A modernidade, segundo Ortega, caminha para um simulacro de realidade, sustentado pela ilusão de autossuficiência. Essa ilusão, que nega a transcendência, desumaniza o homem ao amputar sua conexão com o divino. Como Eric Voegelin argumenta em Hitler e os Alemães, “a dignidade específica do homem é baseada em sua natureza teomórfica, de forma e imagem de Deus. (…) A desdivinização é sempre seguida de uma desumanização”. A farsa da modernidade, portanto, reside na substituição do sagrado pelo homem como criador do mundo, uma mentira que perpetua o mal.
Quando o homem, como tal, foi descoberto? E o que ele descobriu ser? Essas descobertas aconteceram respectivamente nas sociedades helênica e israelita. Na sociedade helênica, o homem era experienciado pelos filósofos do período clássico como um ser que é constituído pelo noûs, pela razão. Na sociedade israelita, o homem é experienciado como o ser a quem Deus dirige sua palavra, ou seja, como um ser pneumático [animado pelo sopro divino] que está aberto à palavra de Deus. A razão e o espírito são os dois modos de constituição do homem, os quais foram generalizados como a ideia de homem. O que significa ser constituído pela razão e pelo espírito? As experiências da razão e do espírito concordam no ponto em que o homem experiência a si mesmo como um ser que não existe por si mesmo. Ele existe num mundo já dado. Este mundo em si existe em razão de um mistério, e o nome deste mistério, da causa desse ser do mundo, do qual o homem é um componente, é Deus. (…) Pela procura do divino, o amoroso sair de nós mesmos em direção ao divino na experiência filosófica e o encontro amoroso através da palavra na experiência pneumática, o homem participa do divino. (…) A dignidade específica do homem é baseada nisto, em sua natureza teomórfica, de forma e imagem de Deus. (…) A perda de dignidade vem através da negação da participação no divino, ou seja, através da desdivinização do homem. Mas já que é precisamente essa participação no divino, esse ser teomórfico, que constitui essencialmente o homem, a desdivinização é sempre seguida de uma desumanização. (…) Tal desdivinização é a consequência de um fechamento deliberado de si mesmo para o divino, tanto para o racionalmente divino como para o pneumaticamente divino, ou seja, o divino filosófico ou revelado. Nesse sentido, falamos de uma perda da realidade. (…) As manifestações típicas dessa perda de realidade são aquelas em que a realidade do homem é colocada no lugar da realidade divina perdida, que sozinha fundamenta a realidade do homem, de tal forma que no lugar do fundamento do ser como causa do ser, o homem como causa do ser chega ao ponto da exageração na ideia de ser o homem o criador do mundo.” (Eric Voegelin).
A Crise Helênica e a Modernidade: Um Paralelo
A formação da polis (cidades-estado gregas) data do século VIII a.C. Anteriormente, as comunidades gregas formavam unidades independentes, baseadas cada qual em suas próprias tradições, sob regime patriarcal-familiar direcionado a cumprir a vontade divina (thémys). Os membros estavam unidos pelo sangue e inexistiam direitos de propriedade, o que gerava conflitos entre os inúmeros clãs vizinhos. Tal relacionamento de natureza instável tornava as comunidades presas fáceis para estrangeiros. A insegurança e a instabilidade exigiram que se estabelecessem novos tipos de vínculos entre os clãs, por meio de acordos racionais que considerassem a disparidade de condições sociais, econômicas e os modos de gestão política mais adequados com vistas a uma convivência equilibrada. São criadas assembleias para que cada parte pudesse expressar suas necessidades e que conflitos internos se resolvessem – o que resultou no surgimento de uma nova formação política e social grega: a polis. A partir de então, instituiu-se um espaço público para a articulação das relações interpessoais e no qual as demandas da comunidade poderiam ser atendidas. A essência da polis é a possibilidade de participação na vida política. O domínio da retórica torna-se relevante, como arte virtuosa, pois, no sentido grego, o cidadão é aquele que está habilitado a participar da política como voz ativa.
Por volta do século V a.C., o crescente poder ateniense – Atenas experimentava seu apogeu, sob o governo de Péricles, como centro cultural, intelectual (era a época de Sócrates, Ésquilo, Sófocles, Protágoras), político (com seu sistema democrático) e econômico, graças aos tesouros obtidos pela Liga de Delos – resultou em conflito com outras polis, incluindo Esparta, e culminou na Guerra do Peloponeso (431 – 404 a.C.). Além da derrota, Atenas foi vitimada por um conjunto de outros fatores: doença (peste de 430 a.C.), enfraquecimento militar, maus governantes – que estabeleceram oligarquias aristocráticas e execuções arbitrárias, culminando com a desmoralização do sistema jurídico. Esparta, apesar de ter derrotado Atenas na Guerra do Peloponeso, por sua vez foi abatida por Tebas. A Grécia via-se ameaçada pela Macedônia, que estendia progressivamente sua hegemonia sobre o Oriente; Alexandre Magno viria a constituir imenso império, que se estendia do sudeste da Europa até a Índia. Todas as cidades ocupadas por ele tiveram desmontadas suas estruturas políticas; esse gigantesco império, por essa razão, não sobreviveu à sua morte precoce, aos 33 anos, em 323 a.C., como unidade política, e as diversas províncias, desejosas por independência, tornaram-se monarquias.
Entre o estabelecimento e o fim do grande império macedônico, as cidades-estado perderam não somente sua autonomia, devido à submissão às monarquias, mas também deixaram de ser o eixo de referência das relações sociais e políticas. À desagregação da vida política seguiu-se a desintegração do homem grego como cidadão, alguém articulado num organismo social referencial; o homem grego se torna “atomizado”, isolado em sua sociedade; em outras palavras, individualizado. A crise experienciada pelo mundo grego, outrora radioso, impõe transformações ao pensamento filosófico: já não mais inseridos politicamente nas decisões de sua comunidade e excluídos da vida pública, cercados por doenças e desmoralização, dos herdeiros da tradição clássica platônica-aristotélica esperava-se, agora, substitutos para todas as convicções (morais, religiosas e políticas) que tinham se tornado problemáticas e não atribuíam, ao homem da época, um sentido para sua vida, descolada da sociedade.
“A filosofia, outrora a via da verdade, vai se transformar numa espécie de religiosidade de circunstância, adequada para as massas. Por isso, sua inferioridade intelectual é, justamente, uma das condições do enorme êxito das filosofias desse tempo. Com elas, o homem antigo em crise obtém uma moral mínima para tempos duros, uma moral de resistência, até que a situação seja radicalmente superada pelo cristianismo.” (Julian Marias).
O novo papel a ser desempenhado pelos filósofos era o de ensinar ao homem grego regras, modos e comportamentos capazes de conduzi-los à felicidade – que passava a ser a finalidade última da vida humana. Ao afastamento das especulações metafísicas e o menosprezo à transcendência, seguiu-se a ascensão do pensamento voltado para a imanência, direcionado à vida prática, em busca de soluções empíricas que restaurassem a sensação de ordem e harmonia à desagregação do mundo grego clássico.
O princípio fundamental das escolas filosóficas (os cínicos, os cirenaicos, os estoicos, os epicuristas) que se desenvolveram durante o declínio das cidades-estado foi o da autarquia, ou seja, o governo de si mesmo: a noção de que o ideal supremo necessário à felicidade era o de bastar-se a si mesmo, ser autossuficiente, autônomo e, por conseguinte, livre.
A modernidade, iniciada no século XVII, enfrentou uma crise semelhante. As guerras religiosas, a Reforma Protestante e a ascensão do racionalismo cartesiano minaram a confiança na transcendência, levando à busca por certezas empíricas e soluções práticas como únicas respostas possíveis à crise social, política e econômica. As drásticas transformações ocorridas entre 1590 e 1640 tornaram o ambiente cultural europeu refratário às incertezas, ambiguidades, tolerância e diferenças de opinião.O Iluminismo francês, com sua ênfase no “conhece-te a ti mesmo”, substituiu o divino pelo homem como fundamento do ser, uma ideia expressa por Alexander Pope: “Know then thyself, presume not God to scan; the proper study of Mankind is Man”. Essa “desdivinização” culminou em ideologias totalitárias do século XX, como o nazismo, que elevou a raça, e o comunismo, que absolutizou a classe, ambos negando a dignidade teomórfica do homem.
Ambas as crises, helênica e moderna, falsearam a realidade ao priorizar a autossuficiência sobre a transcendência.
Conclusões: Recuperando o Sagrado
A crise da modernidade, como a helênica, é uma farsa que silencia o “fundo insubornável” e perpetua o mal ao negar a participação do homem no divino. O conto de Greene nos lembra que a resistência é possível. Assim como David reconheceu o valor da hóstia, a humanidade pode redescobrir o sagrado ao ouvir sua voz profunda, rejeitando as mentiras da autossuficiência. Para Ortega, isso exige salvar a circunstância, reintegrando o eu ao mundo transcendente. A história nos ensina que a desumanização, seja na Grécia helenística ou no século XX, resulta da negação do divino, mas a intuição do menino David ecoa como um apelo: recuperar o “indício” do sagrado é o caminho para restaurar a dignidade do homem.










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