Literatura

Improviso

“O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.” 

“És agora apenas uma fotografia ao lado da minha insônia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu. Nesta fotografia te esqueço. Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te. Tudo em ti tem asas, agora – o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que de ti recordo há um restolhar de penas. E deslizo para esta solidão demasiado humana de não poder voltar a ser sozinho, como era quando tu existias, nesta mesma cidade, e eu já nem sequer pensava em ti.” (Fazes-me falta“, Inês Pedrosa).

 

Foi com grande satisfação que assisti, via YouTube, a um vídeo com o excelente ator Jeremy Irons encenando a peça “Improviso de Ohio”, de Samuel Beckett (1906-1989; premiado com o Nobel de literatura em 1969).

Improviso de Ohio” é um elemento estranho na dramaturgia de Beckett, pois é sua única peça de amor. Representada pela primeira vez em Ohio, em 1981, trata do difícil trabalho de luto após a perda do ser amado. Na verdade, não propriamente um trabalho de luto: a peça trata da reelaboração do passado sobre o presente, como forma de superá-lo.

Temos um Leitor e um Ouvinte, “tão semelhantes quanto possível”; o Ouvinte escuta do Leitor a sua própria história, que é a história de uma perda; é a história daquele que fica, de quando só resta um, a sós com sua sombra. Mais do que simplesmente ouvir, o Ouvinte comanda o ritmo do Leitor: impede tanto a progressão da leitura, durante passagens de forte conteúdo emocional, quanto a retomada de episódios previamente mencionados.

Em “A ignorância”, Milan Kundera escreveu sobre a nostalgia e o esquecimento:

“Quanto mais forte a nostalgia, mais ela se esvazia de lembranças (…) pois a nostalgia não intensifica a atividade da memória, não estimula as lembranças, ela basta a si mesma, à sua própria emoção, tão totalmente absorvida por seu próprio sofrimento.”

A nostalgia, o sofrimento pela impossibilidade do regresso do ser amado, domina o presente, sufoca-o com seu chamado doce e insistente, anulando o passado. A história relida pelo Leitor, recontada progressivamente, recontada enquanto restar cada vez menos a dizer, mais do que um trabalho de luto (segundo o dr. Freud, “o luto aparece sob a influência da prova de realidade, que exige de maneira imperativa que nos separemos do objeto, o qual não existe mais. Desde então, a função do luto é trabalhar para retirar do objeto os investimentos, em todas as ocasiões em que o objeto foi dotado de um investimento elevado”), é a tentativa de fazer triunfar o passado, de consolidar sua permanência sobre um presente nostálgico que gira em falso, que dissolve a si mesmo em esquecimento. É a tentativa de estabelecer a memória daquela relação que se perdeu. A memória é a exaustão da história relida: quando não resta mais nada a ser dito.

A peça tem uma expressão-chave de difícil tradução para o português, “alone together”, que podemos ver nesta passagem (no vídeo, aos 2min36s): Stay, where we were so long alone together”. Maria Helena Kopschitz e Haroldo de Campos, em tradução datada de 1994, propuseram “a sós juntos”. Inspirada por um poema de Fernando Pessoa, Leyla Perrone-Moisés, em tradução publicada pelo caderno Mais da Folha de São Paulo, de 8 de dezembro de 1996, optou, engenhosa e elegantemente, por “dois a sós” (“Fica, onde por tanto tempo fomos dois a sós”). Quando a tradução da Leyla Perrone foi publicada, guardei o recorte do jornal, porque havia gostado bastante da peça e não sabia se um dia seria editada em livro. Tenho-o até hoje.

Assista ao vídeo, legendado em português. Faço apenas uma pequena crítica construtiva aos que postaram o vídeo e tiveram o trabalho de sincronizar as legendas às falas para o YouTube: faltou mencionar que a tradução utilizada foi a realizada pela Leyla Perrone-Moisés. E, abaixo do vídeo, segue “In the aeroplane over the sea“, do Neutral Milk Hotel, que acho que combina bem com a peça.

Amores incompletos

Na vida pública, somos herdeiros do romantismo, da falsa noção de que a veracidade de nossas intenções passa pela intensidade de nossos sentimentos: somos mais reais à mesma medida que somos capazes de nos expor; o sentimentalismo excessivo e venenosamente adocicado de nossa época é a supressão da reflexão em prol de uma resposta emocional imediata; é a expressão pública de emoções sem o devido reconhecimento de que o julgamento racional é o filtro necessário para nossas reações àquilo que presenciamos. Da mesma forma, na vida privada, o romantismo nos ensinou que o amor verdadeiro tem apenas uma exigência: a paixão; se somos capazes de “sentir”, nos consideramos capazes de amar. “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, é o manual escolar do amor romântico: pela descrição detalhada das experiências intensas que constituem o fundamento do amor, do que é e de como deve se parecer alguém apaixonado. O amor nada mais seria do que um conjunto desordenado de emoções intensas.

Mas nosso imaginário romântico também é herdeiro de Platão. No “Banquete”, após Eurixímaco, temos o discurso de Aristófanes sobre o amor (tradução de Carlos Alberto Nunes):

“Porém, primeiro precisareis conhecer a natureza humana e as modificações porque passou. Antigamente, nossa natureza não era como a de agora, mas muito diferente. Para começar, havia três sexos, e não dois apenas, como hoje: masculino e feminino. Além desses, havia um terceiro, formado dos outros dois; o nome ainda subsiste, porém o sexo desapareceu. Em verdade, era o sexo andrógino, com a forma e o nome dos outros dois sexo, masculino e feminino. Porém, só o nome chegou até nós, bastante desmoralizado. Além do mais, no todo os homens eram redondos, com o dorso e os flancos como uma bola. Possuíam quatro mãos, igual número de pernas, dois rostos perfeitamente iguais num só pescoço bem torneado, e uma única cabeça com os rostos dispostos em sentido contrário (…) Andavam de pé, como hoje, para qualquer lado; porém, se se dispunham a correr velozmente, faziam como os saltimbancos, que viram em círculo e jogam as pernas para o ar, até completar a volta (…) eram de força e vigor extraordinários, e por serem dotados de coragem sem par, atacaram os próprios deuses (…). Então Zeus deliberou com as demais divindades sobre o que era preciso fazer com eles, porém não chegaram a nenhuma conclusão. Realmente, nem era aconselhável matá-los ou fulminá-los, como haviam feito com os gigantes, destruindo, desse modo, toda a espécie, pois tal medida implicava o desaparecimento do culto e dos sacrifícios prestados pelos homens, nem deixar, ainda, que prosseguissem com tamanha insolência. Depois de muito refletir, falou Zeus deste modo: “Penso ter encontrado um meio”, declarou, “de conservar os homens e por cobro a essa indisciplina: bastará enfraquecê-los. Agora mesmo vou dividi-los pelo meio, pois desse modo não somente ficarão mais fracos, como nos serão também de maior utilidade, pelo fato de aumentarem de número.” (…) Assim dizendo, partiu os homens ao meio (…) à medida que os ia dividindo, mandava que Apolo lhes virasse o rosto e metade do pescoço para o lado do corte: ao perceber a incisão que lhes fora feita, o homem saberia moderar-se.(…)
Seccionados, desse modo, os corpos, cada metade sentiu saudades da outra, e procurando ambas a sua parte, estendiam reciprocamente os braços, estreitavam-se, no anelo de se fundirem num só corpo, do que resultou morrerem de fome e inanição, pelo fato de nenhuma parte querer fazer nada separada da outra. (…) Cada um de nós, por conseguinte, só é homem pela metade, mero símbolo, por ter sido cortado ao meio (…) de um passaram a ser dois, do que resulta viverem todos a procurar sua metade complementar.
Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam a vida juntas, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. Apenas poderia ser o prazer dos sentidos que leva cada um a procurar a companhia do outro. É evidente que a alma de ambos deseja algo que ela própria não sabe definir, mas advinha ou sugere vagamente. E, se, porventura, se aproximasse deles Hefesto com seus instrumentos, quando estivessem dormindo no mesmo leito, e lhes perguntasse: “Homens, que é o que cada um de vós deseja do outro?” E percebendo o enleamento dos dois, voltasse a interrogá-los: “O que quereis não será, porventura, unir-se o mais intimamente possível, sem vos separardes nem de dia nem de noite? Se é isso o que almejais, vou derreter-vos e insuflar em ambos um sopro único, de forma que de dois passeis a ser um só, para que enquanto viverdes possais estar sempre juntos como se fôsseis apenas um, e, depois de mortos, no Hades, não sejais dois, porém apenas um morto apenas, por haverdes tido morte comum.” (…)
Se ouvissem tal proposta, estamos certos de que nenhum diria não, nem declararia desejar outra coisa, mas com a maior boa fé julgaria ter ouvido o que de muito ambicionavam: unir-se ao objeto amado e com ele fundir-se, para formarem um único ser, em vez de dois. E a razão disso é que primitivamente era assim nossa natureza, e nós formávamos um todo homogêneo. A saudade desse todo e o empenho em restabelecê-lo é o que denominamos amor.”

Temos aí, distinto leitor, prezada leitora, o mais conhecido mito de origem do amor: o amor como a busca pela nossa outra metade, nossa “cara-metade”; e, ao encontrá-la, não sabemos bem porque, simplesmente “sentimos” que é com ela que queremos passar o resto de nossa vida juntos (“essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra”). O amor como força que supera tudo, até os deuses.

A partir da noção de que existe realmente alguém por aí que é a nossa perfeita metade, elaboramos um conjunto de especificações daquilo que esperamos do amado ausente, com os elementos que supostamente preencheriam nosso vazio ontológico. John Armstrong, em “Conditions of Love – the philosophy of intimacy”, argumenta que, sempre que a “pessoa certa” é excessivamente especificada, inevitavelmente ficará aquém do que imaginamos, sempre estará fora do limite dessas compatibilidades idealizadas. Pascal Bruckner, em “Fracassou o casamento por amor?”, escreve: Estabeleça um ideal e você imediatamente estará engendrando millhões de inadaptados, incapazes de alçar a essa altitude que se imaginam, então, deficientes.(…) A esfera doméstica tornou-se um campo de batalha titânica entre o sublime que se almeja e o trivial que se vive”. Acredita-se, vulgarmente, que incompatibilidades são destrutivas para os relacionamentos, e se esquece de que, durante qualquer relacionamento, durante o curso de uma vida mesmo, prioridades mudam – seja porque as pessoas mudam, seja porque, como dizia o poeta, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”; portanto, durante um relacionamento as compatibilidades podem mudar também. Logo, não pode haver uma compatibilidade perfeita. Quando todo mundo concorda com todo mundo em tudo, as poucas diferenças irão parecer desproporcionais.

Não que certas compatibilidades não sejam necessárias, obviamente que são. O ponto é que talvez seja mais sábio mudar de perspectiva: em vez de pensar em buscar “a pessoa certa”, procurar pelas “atitudes certas” – os recursos e as capacidades para se importar com alguém, para amar alguém. Quando se pensa em procurar pela “pessoa certa”, todo o foco recai sobre o procurado, eximindo o procurador de responsabilidades sobre si na parte que lhe cabe do relacionamento. Como escreve Armstrong:

“Evitar tem sido uma característica chave na busca pela pessoa certa, pois a atenção é desviada daqueles que procuram. Eles não tem responsabilidades no amor; imaginam que, quando encontrarem a pessoa certa, o amor florescerá fácil e espontaneamente e sobreviverá por conta própria.(…) a experiência de aprendizado para amar alguém no longo prazo requer adaptações, inclui abandonar algumas exigências e aprender outras, mudar de prioridades. Se você é capaz de fazer isso com alguém, provavelmente será capaz de fazê-lo com outras pessoas. Compatibilidade, por conseguinte, será uma conquista, não um pré-requisito para o amor.”

A perfeita contraposição de Goethe é Ortega Y Gasset em seu “Estudos sobre o amor”. Se o romantismo ama a ideia de amor, a ideia de apaixonar-se, o ser amado torna-se mero pretexto para amar, pretexto que aos poucos se converte em uma ficção. Gasset afirma que amar é

atuar na direção do amado, um ato transitivo através do qual nos entregamos àquilo que amamos”. O desejo tem caráter passivo pois “aquilo que desejo quando desejo é que o objeto venha até mim”; o amor é o eterno insatisfeito e, no ato amoroso, “saímos de nós próprios…não é o objeto que é atraído por mim, sou eu que gravito na sua direção.”

Se o desejo se anula quando se satisfaz, o amor, pelo contrário, ao buscar sua satisfação, intensifica-se; amar seria a preservação intencional do ser amado.

“O amor chega ao objeto numa dilatação virtual, e empenha-se numa tarefa invisível, mas divina, e a mais diligente que possa existir: afirmar seu objeto. (…) Amar uma coisa é estar empenhado em que exista; não admitir, naquilo que de nós depende, a possibilidade de um universo onde esse objeto esteja ausente. Mas note-se que isto equivale a dar-lhe vida de forma contínua, naquilo que de nós depende, intencionalmente. (…) O exclusivismo da atenção que dirigimos ao ser amado o dota de qualidades prodigiosas. Não é que se imaginem nele perfeições inexistentes, embora isso possa acontecer. À força de manipular pela atenção um objeto, de nos fixarmos nele, o objeto adquire para a consciência uma força de realidade incomparável. Existe permanentemente para nós; está sempre ali, ao nosso lado.”

O amor nos enriquece porque amplia nossa perspectiva: passamos a enxergar o mundo com outros olhos, além dos nossos. Poderíamos aplicar aqui o mesmo conceito da “compaixão”, nas palavras de Milan Kundera: o amor permite “compartilhar com alguém a mesma imaginação afetiva.”

Os messias seculares

 

 Trechos deste grande livro de George Steiner (não sei se há edição brasileira, a minha é a da portuguesa “Relógio d’Água”), “Nostalgia do absoluto“. Steiner – nas palavras do João Pereira Coutinho, “o último grande humanista do nosso tempo” – é crítico literário, licenciado em letras pela Universidade de Chicago, com mestrado pela Universidade de Harvard, doutorado pela Universidade de Oxford.

“As grandes mitologias que tem vindo a ser construídas no Ocidente desde o início do século XIX não são apenas tentativas de preencher o vazio deixado pela decadência da teologia e do dogma cristãos. São, em si, uma espécie de teologia substituta. São sistemas de crença e argumento que poderão ser selvaticamente antirreligiosos, postular um mundo sem Deus e negar uma vida depois da morte, mas cujas estruturas, aspirações e exigências feitas ao crente são profundamente religiosas na estratégia e nos efeitos. Por outras palavras, ao considerarmos o marxismo, ao apreciarmos os diagnósticos freudianos ou jungianos da consciência psicológica, ao examinarmos todos estes sistemas como mitologias, verificamos que todos eles são totais, canonicamente organizados, imagens simbólicas do significado do homem e da realidade. Ao reflectirmos sobre eles, neles reconheceremos não apenas negações da religião tradicional (afinal, cada um deles está a dizer-nos: vejam, já não precisamos da velha igreja – fora com o dogma, fora com a teologia), mas também sistemas que, a cada ponto decisivo, mostram sinais de um passado teológico.

Permitam-me que sublinhe esta afirmação. É, com efeito, o centro do que procuro dizer, e espero que esteja perfeitamente claro. Esses grandes movimentos, esses grandes gestos da imaginação que tentaram substituir a religião, especialmente o Cristianismo, no Ocidente, são muito semelhantes às igrejas e teologia que desejam substituir. Dir-se-ia, talvez, que, em qualquer grande luta, começamos a parecer-nos com o nosso inimigo.”

E quais são os aspectos estruturais dessas “mitologias”, desses sistemas de pensamento – cujas bases são muito mais teológicas do que seus pregadores admitem – de que nos fala Steiner?

1) Pretensão de analisar a condição humana em sua totalidade;

2) Criação de um “marco zero”, do instante inaugural lendário e súbito (antes dele nada tinha sentido, depois dele todo o resto perdeu seu valor) e supostamente profético, a fim de assegurar um cânone  desde seus primeiro passos;

3) Desenvolvimento de uma linguagem própria, capaz de engendrar novos mitos, numa espécie de auto-louvação perpétua;

4) Definição dos critérios de sua ortodoxia, para que os “hereges” sejam facilmente reconhecidos e implacavelmente perseguidos.

A moral da história?

Atenção para as emulações;  prefira sempre o original.

Os limites dos ideais – segunda parte

 

Ideal, do latim ideālis, significa “criado no entendimento e na imaginação”. Um ideal é algo que não existe. Mas não é uma utopia. Aquele que vive pela utopia é um “estrangeiro em qualquer lugar”, pois recusa a realidade e tenta dobrá-la ante sua imaginação. O ideal é um modelo com poucas probabilidades de acontecer na prática, eis a diferença essencial.

Em “O abandono dos ideais”, Olavo de Carvalho define o ideal como a síntese entre o impulso de universalidade e os interesses do indivíduo, entre a ideia do sentido da vida e a do preço exigido para sua realização:

“Diz-se que um homem tem um ideal quando ele sabe em qual direção tem de ir para tornar-se aquilo que almeja, e quando está firmemente decidido a ir nessa direção.”

O ideal é o esteio de coesão da personalidade, sem o qual ela

“(…) se dispersa em aspirações fortuitas e esforços estéreis; miragem e emblema, sua visão nos dinamiza, nos eleva e enobrece, e é sempre a lembrança do seu apelo que nos reergue após cada erro e cada desengano. (…) É ainda pela força do ideal que o homem transcende o sono entorpecido da subjetividade intra-orgânica, das falsas ideias e aspirações que não são senão a secreção passiva da fisiologia, para despertar a um mundo de realidades objetivas que a inteligência discerne e que a consciência moral obriga a reconhecer; é assim que a alma se liberta do poço escuro da individualidade estanque, para elevar-se ao mundo maior da sociedade, da cultura, da vida moral, ao sentimento de universo e ao desejo de Deus.”

O ideal é uma abertura para a transcendência no sentido em que representa a tensão vivida pelo indivíduo entre ser e poder ser – distintamente daquela operada pela utopia, entre ser e dever ser. Sem o ideal, assemelhamo-nos aos prisioneiros da caverna de Platão: homens e mulheres impossibilitados de experimentar, de modo inseparável, a beleza, o bem e a verdade.

“(Sem o ideal) não haveria meio de fazer um homem sacrificar-se, impor-se restrições, contrariar desejos e reprimir temores, em prol de algum valor moral, social ou religioso, para alcançar sua plena estatura humana e tornar-se, talvez, maior do que ele mesmo. Mas o desejo, que move a alma, não pode ser despertado por uma simples ideia abstrata, por verdadeira que seja; ele necessita de imagens plásticas, sensíveis, que lhe deem como que uma presença antecipada do seu objetivo. Também não se move, exceto no homem grosseiro, ao simples apelo de uma imagem atrativa; mas aguarda que a inteligência examine e aprove o objeto como desejável e bom. Não basta que a meta seja verdadeira; é preciso que seja bela. Mas não basta que seja bela; é preciso que seja verdadeira e justa. É a síntese dessa tripla exigência, intelectual, estética e moral, que se denomina “ideal”.”

A exigência de que seja bom, belo e verdadeiro mantém a inter-relação do ideal com o real – é a sua moralidade, em oposição à imoralidade tirânica da utopia. O ideal é a medida do homem, enquanto a utopia é sua distensão até os limites inatingíveis de uma perfeição imaginária:

“O ideal é o caminho pelo qual as aspirações individuais de felicidade distribuem-se nos sulcos já abertos da realidade exterior, saem da redoma do sonho e ganham um corpo no cenário maior dos fatos e das coisas. Sem um ideal definido, todas as melhores aspirações não passam de sonhos, porque não há um dever moral imanente a exigir que se amoldem à realidade, que se limitem em extensão para realizar-se em intensidade. Só o homem idealista é realista; os demais são sonhadores ou cínicos. Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, veem-nas melhores ou piores do que são.”

“Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, veem-nas melhores ou piores do que são.” Essa frase do Olavo lembra a de Ortega y Gasset, em “Mirabeau ou o político”:

“A humanidade é como uma mulher que se casa com um artista porque é artista, e depois se queixa porque este não se comporta como um chefe de repartição.”

A utopia é ápice da corrupção do ideal pela “exaltação imaginativa”, descrita por Paul Diel, mencionado por Olavo de Carvalho; a exaltação imaginativa é

“Um estado em que a mente, embevecida com o seu ideal, se identifica mais ou menos inconscientemente com ele e atribui a si as perfeições que a ele pertencem, como se já as tivesse realizado. (…) O exaltado toma o potencial por atual, imaginando possuir as perfeições a que aspira. Por isto mesmo, sua alma experimenta, como num choque de retorno, um sentimento de estranheza e de impotência perante o mundo, que não cede, como ele esperava, aos seus encantos e poderes. Acuado pelas exigências da realidade, ele exacerba ainda mais sua adoração de si mesmo diante de um mundo que ele julga vil, mesquinho e incompreensivo, quando na verdade é ele mesmo quem não compreende o mundo, e por não compreendê-lo, está impotente para agir nele.”

Em “Sonho de um homem ridículo”, Dostoiésvki nos apresenta os efeitos da exaltação imaginativa na germinação das utopias e do entrechoque destas com a realidade. Nesse conto, temos um pobre homem não identificado, anônimo, em cuja alma crescia

“Uma melancolia terrível por causa de uma circunstância que já estava infinitamente acima de todo o meu ser: mais precisamente – ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz. Fazia muito tempo que eu vinha pressentindo isso, mas a plena convicção surgiu no último ano, assim, de repente. Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. (…) Tudo me era indiferente.

Então, depois disso, conheci a verdade. Conheci a verdade em novembro passado, mais precisamente em três de novembro, e desde então me lembro de cada instante da minha vida.”

O homem decide se matar:

“O céu estava horrivelmente escuro, mas era possível discernir com clareza algumas nuvens rotas, e entre elas manchas negras sem fundo. De repente notei numas dessas manchas uma estrelinha, e fiquei a olhar fixamente para ela. Porque essa estrelinha me trouxe uma ideia: eu tinha decidido me matar naquela noite.

(…) Então, enquanto eu olhava para o céu, de repente me agarrou pelo cotovelo essa menina. (…) A menina tinha uns oito anos, de lencinho e só de vestidinho, toda encharcada, mas guardei na lembrança especialmente os seus sapatos rotos e encharcados, ainda agora me lembro deles. (…) De repente ela começou a me puxar pelo cotovelo e a me chamar. Não chorava, mas soltava entre gritos umas palavras que não conseguia pronunciar direito, porque tremia toda com tremedeira miúda de calafrio. Estava em pânico por alguma coisa e berrava desesperada: “mamãe! Mamãe!. Voltei o rosto para ela, mas não disse uma palavra e continuei andando, só que ela corria e me puxava, e na sua voz ressoava aquele som que nas crianças muito assustadas significa desespero. Conheço esse som. Embora ela não articulasse bem as palavras, entendi que a sua mãe estava morrendo em algum lugar, ou que alguma coisa acontecera lá com elas, e ela fora correndo chamar alguém ou alguma coisa para ajudar a mãe. Mas não fui atrás dela, e, ao contrário, me veio de repente a ideia de enxotá-la. Primeiro lhe disse que fosse procurar um policial. Mas ela de repente juntou as mãozinhas, e, soluçando, sufocando, corria sem parar ao meu lado e não me largava. Foi então que bati o pé e dei um grito. Ela apenas gritou bem forte: “senhor, senhor!…”, mas de re pente me largou e atravessou a rua correndo desabalada: lá também apareceu um passante qualquer, e ela, pelo visto, largara de mim para alcançá-lo.”

Mas eis que, em seu apartamento, sentado à mesa na poltrona, diante do revólver, o homem adormece e sonha. Sonha que havia se matado e depois conduzido para outro lugar:

“E eis que de repente o meu caixão se rompeu. Isto é, não sei se ele foi aberto ou desenterrado, mas fui pego por alguma criatura escura e desconhecida para mim, e nós nos encontrávamos no espaço. (…) Voávamos no espaço já longe da terra.”

É levado para um mundo ideal, sua mesma terra, só que em outra época, indefinida. Uma época de ouro:

“(…) eu estava nessa outra terra sob a luz radiante de um dia ensolarado e encantador como o paraíso. Tudo era exatamente como na nossa terra, mas parecia que por toda a parte rebrilhava uma espécie de festa e um triunfo grandioso, santo, enfim alcançado. Um carinhoso mar de esmeralda batia tranquilo nas margens e as beijava com um amor declarado, visível, quase consciente. (…) E, finalmente, eu vi e conheci os habitantes dessa terra feliz.(…) Eu nunca tinha visto na nossa terra tanta beleza no homem.”

Sobrevém, a essa terra de ouro, caos, tormento, miséria e sofrimento, e o pobre homem assiste, impotente, a essa destruição.

 “E, no entanto, se pelo menos fosse possível que eles voltassem àquele estado inocente e feliz do qual se privaram, e se pelo menos alguém de repente o mostrasse a eles de novo e lhes perguntasse: querem voltar? – eles certamente recusariam. Respondiam-me: “e daí que sejamos mentirosos, maus e injustos, sabemos disso e deploramos isso, e nos afligimos por isso a nós mesmos (…) Mas temos a ciência, e por meio dela encontraremos de novo a verdade, mas dessa vez a usaremos conscientemente, o entendimento é superior ao sentimento, a consciência da vida – é superior à vida. A ciência nos dará sabedoria, a sabedoria revelará as leis, e o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade.”

Repare o leitor que essa é a frase-chave que define uma utopia e a diferencia de um ideal: “o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade.” E então o pobre homem acorda, e percebe que seu sonho foi, na verdade, uma revelação, uma epifania:

“A verdade, eu a vi com meus próprios olhos! (…) Todos seguem em direção a uma única e mesma coisa, pelo menos todos anseiam por uma única e mesma coisa, do mais sábio ao último dos bandidos, só que por caminhos diferentes. (…) Eu sei que as pessoas podem ser belas e felizes, sem perder a capacidade de viver na terra.”

Distinto leitor, note que sem perder a capacidade de viver na terra” equivale a “não ser um estranho em sua própria casa” (Thomas More). O pobre homem não desperta somente de seu sonho, mas do sonho que era sua própria vida. Determinado a mudar o mundo, descobre que é mais importante mudar a si mesmo:

“A verdade, porém, me cochichou que eu mentia e me guardou e me aprumou o passo. Mas como instaurar o paraíso – isso eu não sei (…). O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal. (…) “A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade” – é contra isso que é preciso lutar!”

O conto termina com o pobre homem saindo à procura pela menininha de oito anos nas ruas de São Petersburgo.

O ideal é a argamassa dos magnânimos; a utopia, a dos pusilânimes. Em “Mirabeau ou o político”, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreve duas perspectivas morais contraditórias que atribuem sentidos distintos à realidade:

“Desde há um século e meio, tudo conspira para nos ocultar o fato de que as almas tem formatos diferentes, que existem almas grandes e almas pequenas, onde grande e pequeno não significam nossa avaliação dessas almas, e sim a diferença real de duas estruturas psicológicas distintas, de dois modos antagônicos de funcionamento da psique. O magnânimo e o pusilânime pertencem a espécies diversas; viver é, para um e outro, uma operação de sentido divergente. (…)

O magnânimo é um homem que tem missão criadora: viver e ser são, para ele, fazer grandes coisas, produzir obras de grande calibre. O pusilânime, por sua vez, carece de missão; viver é para ele simplesmente existir, conservar-se, andar por entre as coisas que já estão aí, feitas por outros. Seus atos não brotam de uma necessidade criadora, originária, inspirada e ineludível. O pusilânime, por si, não tem o que fazer: faltam-lhe os projetos e o afã rigoroso de execução. De forma que, não havendo “destino” em seu interior, necessidade congênita de criar, de extravasar-se em obras, só age movido por interesses subjetivos: o prazer e a dor. Procura o prazer e evita a dor. Esse modo de funcionar vitalmente que encontra em si mesmo leva-o a supor, por exemplo, que um pintor se entrega a seu trabalho movido pelo desejo de ser famoso, rico, etc. Como se entre o desejo de fama, riqueza, prazeres e a possibilidade de pintar este ou aquele quadro, de inventar um estilo determinado, existisse a menor conexão! O pusilânime deveria saber que o primeiro pintor famoso não teve a intenção de ser um pintor famoso, mas exclusivamente de pintar, pela simples necessidade de criar beleza plástica. Só posteriormente a sua vida e obra que se formou na mente dos outros, especialmente dos pusilânimes, a ideia ou ideal de ser “pintor famoso”. E então, só então, atraídos realmente pelas vantagens egoísticas desse papel, o de “pintor famoso”, é que começaram a pintar os pusilânimes, isto é, os maus pintores.”

Os ideais ampliam os horizontes das potencialidades humanas, mas dentro dos limites do possível, da realidade. O ideal embasa o presente, mira o futuro e permite corrigir erros do passado. Um ideal contém em si sua impossibilidade: o que importa é o caminho, não o fim. Retorno a Ortega y Gasset:

“Talvez o que mais diferencie a mente infantil do espírito maduro seja que aquela não reconhece a jurisdição da realidade e deturpa as coisas com imagens desejadas. Sente o real como uma matéria mole e mágica, dócil às combinações de nossa ambição. A maturidade começa quando descobrimos que o mundo é sólido, que a margem de folga concedida à intervenção de nosso desejo é muito escassa, e que um pouco além dele levanta-se uma matéria resistente, de consitutição rígida e inexorável.”

 

Concluo com uma frase de Isaiah Berlin, de “A busca do ideal”, texto presente no livro “Os limites da utopia” (tradução em português da editora Companhia das Letras para a edição de “The crooked timber of humanity – chapters in the history of ideas):

“As formas de viver são diferentes. Os fins, os princípios morais são variados. Mas não infinitamente variados: eles devem se situar nos limites do horizonte humano. Caso contrário, estarão fora da esfera humana.”

P.S.: o assunto acerca das restrições dos ideais surgiu após assistir à primeira aula do Curso “Steve Jobs – um artista da fome?”, do Martim Vasques da Cunha, que versou, entre outras coisas, sobre a psicologia do empreendedor e sua tentativa de dobrar o real ante seus desejos. Martim gentilmente me indicou os textos do Olavo de Carvalho e do Isaiah Berlin, pelo que sou-lhe grato.

Os limites dos ideais – primeira parte

Quem resiste ao poder encantatório das palavras de José Ingenieros, no início de seu “O homem medíocre”?

“Há certa hora na qual o pastor ingênuo assombra-se diante da natureza que o envolve. A penumbra se espessa, a cor das coisas se conforma num cinza homogêneo das silhuetas, a primeira umidade crepuscular levanta de todas as plantas um vago perfume, aquieta-se o rebanho a fim de dormir, a remota campainha toca seu aviso vesperal. (…) Sentado na pedra menos áspera que encontra à beira do caminho, o pastor contempla e emudece, convidado em vão a meditar, pela convergência do lugar e da hora. Sua admiração primitiva é simples estupor. A poesia natural que o rodeia, ao refletir-se em sua imaginação, não se converte em poema. (…) A imensa massa dos homens pensa com a cabeça deste ingênuo pastor: não entende o idioma de quem lhe explica algum mistério do universo ou da vida, a evolução eterna de tudo o que é conhecido, nem tampouco a possibilidade de aperfeiçoamento humano na contínua adaptação do homem à natureza.”

Lindo, não? Mas o que prometem essas palavras?

“Para conceber uma perfeição é necessário certo nível ético e é indispensável um mínimo de educação intelectual. Sem eles, pode haver fanatismos e superstições; ideias jamais.”

 

Ingenieros quer falar sobre ideais. O homem medíocre é o homem sem ideais. É o homem para quem os limites do real – e de si mesmo – são formados pelos limites de sua própria experiência sensível, encarcerado em si mesmo, incapaz de compreender nada além do que a vista pode alcançar. O homem medíocre se espanta diante do mundo, e esse espanto não frutifica, torna-se estupor paralisante – para ser, mais tarde, esquecido.

“Suas rotinas e seus pré-juízos parecem-lhes eternamente invariáveis; sua obtusa imaginação não concebe perfeições passadas nem futuras; o estreito horizonte de sua experiência constitui o limite necessário de sua mente. Não podem formar um ideal. (…) Todo sonho seguido por multidões, apenas é pensado por poucos visionários que são seus amos.”

Os homens medíocres estão entre os “mentalmente inferiores, que merecem o desprezo” e os “mentalmente superiores, que merecem a apologia”.

“Individualmente considerada, a mediocridade poderá ser definida como uma ausência de características pessoais que permitam distinguir o indivíduo em sua sociedade.”

A solenidade pomposa das palavras de Ingenieros mal disfarça seu desprezo à ideia de mediocridade como valor absoluto, pois pouco importa se o desenvolvimento interior do homem é capaz de sustentar ou não sua virtude moral; o que importa é se há uma função social, se o fortalecimento da consciência individual dirige-se para o progresso social.

“O homem medíocre apenas pode ser definido em relação à sociedade em que vive, e por sua função social.”

A mediocridade, portanto, não pode nem deve ser malvista.

“Não concebemos o aperfeiçoamento social como um produto da uniformidade de todos os indivíduos, senão como a combinação harmônica de originalidades incessantemente multiplicadas. Todos os inimigos da diferenciação vem a sê-lo do progresso; é natural, por fim, que considerem a originalidade um defeito imperdoável.”

O homem medíocre é definido em relação à sociedade em que vive, como elemento constitutivo essencial – porém, encontra-se aprisionado nela (pois travestido de uma função social), na mesma sociedade da qual deveria (tentar) se ver livre.

“Os homens sem ideais desempenham na história humana o mesmo papel que a herança na evolução biológica; conservam e transmitem as variações úteis para a continuidade do grupo social. Constituem uma força destinada a contrastar o poder dissolvente dos inferiores e a conter as antecipações atrevidas dos visionários. A coesão do conjunto, deles necessita, como um mosaico bizantino precisa do cimento que o sustém.”

Mas o ponto mais interessante – e mais difícil de ser resolvido – levantado pelo gongorismo de Ingenieros, involuntariamente, aparece neste trecho:

“As existências vegetativas não tem biografia: na história de sua sociedade apenas vive aquele que deixa rastros nas coisas ou nos espíritos.”

Os mesmos limites impostos pela vida em sociedade (os fardos de rotinas, os preconceitos e as domesticidades) não seriam necessários para a construção e para o suporte da personalidade do indivíduo? Visar a um ideal não se aproxima perigosamente da elaboração de uma utopia? Um ideal deve conter implícita em sua gênese sua própria impossibilidade, considerando-se a “insuficiência ontológica” (palavras de Luiz Felipe Pondé) do homem? Se homens desprovidos de personalidade estão à mercê de influências sociais que oscilam conforme o zeitgeist (o espírito de uma época), viver para “deixar rastros nas coisas” não equivale a viver apenas para fundar reinos de sonhos privados? Viver para alcançar a eternidade no presente? Viver não se torna uma “missão” cujo fim seria a substituição da realidade por outra, imaginária?